Por: Richard Rodrigues
Em um momento em que o UCM parece constantemente pressionado a escalar conflitos e preparar o próximo grande evento, Wonder Man escolhe o caminho oposto: reduzir a escala e ampliar a intimidade onde o espetáculo não está nas batalhas, mas na fragilidade do protagonista.
Simon Williams é um personagem que vive um paradoxo fascinante possuindo poderes extraordinários, mas seu maior desejo é ser reconhecido por algo completamente humano, atuar e a série constrói esse conflito com inteligência.
Seus poderes não são celebrados como solução, mas tratados como ruído, como um elemento que ameaça distorcer sua identidade artística e prejudicar toda a sua carreira.
A atuação de Yahya Abdul-Mateen II é o eixo central da série. Ele interpreta Simon com uma combinação rara de carisma e vulnerabilidade. Há momentos em que o personagem parece à beira de um colapso silencioso, sufocado pela pressão de provar que seu talento é mais valioso do que seus dons sobre-humanos. Yahya entrega nuances, olhares, pausas, inseguranças contidas que elevam o material.
O retorno de Trevor Slattery, vivido por Ben Kingsley, é um dos maiores acertos narrativos. Depois de ser apresentado em Iron Man 3 e revisitado em Shang-Chi and the Legend of the Ten Rings, aqui ele deixa de ser apenas um meta-comentário cômico sobre atuação e passa a representar algo maior: a linha tênue entre performance e identidade.
A relação entre Trevor e Simon é quase um espelho distorcido entre um ator que fingiu ser algo grandioso aconselhando alguém que teme ser reduzido aos próprios poderes. Essa dicotomia sarcástica e ao mesmo tempo poética gera uma camada ainda mais cônica a amizade dos dois.
Mesmo com um orçamento visivelmente mais contido, a série encontra criatividade na mise-en-scène. A ambientação em sets de filmagem e bastidores de Hollywood cria uma metalinguagem interessante: estamos vendo uma série sobre alguém tentando atuar dentro de um universo que também é sobre performance constante.
O último ato é simbólico e elegante. Quando Simon finalmente conquista seu grande papel em um filme de herói, o arco não é apenas sobre fama mas também sobre aceitação de sua identidade. Ele entende por fim que não precisa separar completamente suas duas naturezas.
Pode ser ator e pode ser herói.
O maior mérito de Wonder Man é sua autonomia. Ela não exige que o espectador esteja imerso no UCM para funcionar. Existe dentro do universo Marvel, mas não depende dele emocionalmente. E isso é libertador.
Hoje, coloco facilmente no meu top 3 de séries da Marvel, ao lado de Loki e WandaVision não por grandiosidade, mas por sua leve identidade.



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